quinta-feira, 8 de junho de 2017

Anacronismo

O tempo é um sujeito irônico, matreiro, sempre com muitas artimanhas no bolso. Ele vem chegando, aos poucos, tomando conta da situação. Dá as caras e mexe com as nossas, construindo curvas onde havia retas. Transforma certezas adolescentes em dúvidas idosas, desmancha caprichos, nocauteia tolices, apaga retrovisores e acende luzes de alerta.
Talvez haja coisas atemporais. Talvez. Só que os temporais acontecem, notadamente para quem não possui guarda-chuva. Eu não usei guarda-chuva por muito tempo. Nem por isso fiquei molhado em demasia. Marquises foram tão úteis para mim quanto para moradores de rua crônicos.
Mas o que chama minhas palavras agora é o anacronismo. Confesso que me sinto tomado por ele. Quem sabe irreversivelmente. Acreditem ou não, ainda olho para a Lua, desejo bom dia a quem nunca vi antes, agradeço por aquilo que alguns consideram obrigação e, o mais grave, sou romântico, sem ser piegas (será?). Torço pelos índios, contra a cavalaria, pelos fracos e oprimidos (e isso não se restringe às telas de cinema). Não risquei do dicionário palavras como ética, imparcialidade, compaixão, companheirismo, amor.
Acham que para por aí? Não frequento os templos do deus mercado, desprezo roupas de marca, não babo diante de vitrines, não troco de carro antes de trocar os pneus, não sou ateu nem neoliberal. Não torço pelo Flamengo e minha nega não se chama Teresa.
Ufa! O tom confessional era inevitável. Sinto-me razoavelmente aturdido com a constatação de que me tornei, sem perceber, um dinossauro. Nado contra a correnteza, enfrentando as marés, sem lenço e sem documentos. Mas pasmem: sem perder minha identidade. Sou o que sou, o que soa em mim, deixando que o suor leve para fora e longe o que não rima nem rema comigo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Panela de expressão

Preparo meus versos crus e destemperados na panela de expressão.

Até onde?

Gente, até onde vai o amor?
Até onde a gente vaia o amor.

Entre o azul e o vermelho

Cismo em viver diferente das ostras,sem ostracismo. Aliás, é lilás e sísmico o meu viver, pois há tremores, tambores e amores que sacodem todas as perspectivas em que acredito. Entre o azul e o vermelho, diante e atrás do espelho, eu jamais me repito.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Gente

Gente, é urgente! 
Deixar rolar, fluir, sem deter gente. 
Gente, é urgente!
Desenrolar, influir, sem fugir do que urge na mente.
Gente, é urgente!
Soltar os gritos, para não ficar só...nos ritos de sempre.
Gente, é urgente!
Sair dos trilhos e descobrir trilhas, milhas e milhas, muito mais que migalhas somente.

Freud e Marx

Mais Freud e menos Marx.
Mas, nem por isso, marque-se...

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Onde já se "vil"?

Estremeço diante da instabilidade contemporânea. 
Crises sistêmicas abalam os alicerces da economia, da política, da fé na vida, da confiabilidade em instituições e intuições.
Lunáticos (nenhuma referência à Lua) aplaudem incendiários ensandecidos.
Falsos ingênuos justificam os desmandos e mazelas, ao entendimento de que "é assim mesmo, sempre foi assim".
Ora, ora!
Aderir ao discurso (e prática) de indivíduos patologizados, portadores de dores que não revelam, que não suportam é abrir as portas ao caos da intolerância, desamor.
Combater a violência com violência?
Isso não resiste à análise perfunctória de um primeiro-anista de Psicologia ou Filosofia. Perdoe-os, Gandhi ("olho por olho e o mundo acabará cego"), eles não sabem o que dizem.
Quanto ao determinismo das coisas, sinto muito, mas isso tem o péssimo hálito da "identificação sorrateira", espécie de investimento tenebroso e pernicioso na eternização das iniquidades.
Só beneficiários contumazes ou candidatos a tal passariam a mão na cabeça dos que perdem a cabeça diante do vil metal.