quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Eus

Sou negro, branco, cafuzo e confuso.
Brasileiro, português, africano, humano.
Acredito em Deus e respeito muçulmanos e judeus.
Não jogo lixo no chão e quando vejo isso dá até comichão.
Minha casa é também a rua. Afinal, aprecio a elegância nua.
Protesto sem ser protestante, carrego sonhos no ventre como a gestante.
Acolho com sorrisos todas as formas de amor e de desejo. Inclusive as que raramente vejo.
Aprecio a divisão da riqueza e a democratização do conceito de beleza.
Defendo a vida até e após a morte e o espetáculo da liberdade, sem corte.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Pensando em pensamentos

Por que pensamos como pensamos?
Por que pensamos o que pensamos?
Por que pensamos?
Para gritar em silêncio, silenciar os gritos, preparar o bote, saltar dele...
O pensamento não está necessariamente associado à atitude. O pensamento é fruto da imaginação, da imagem que se projeta na ação. Cultura, exemplos, traumas, crenças. Feridas abertas (sofrimentos) causam dores. Feridas fechadas (cicatrizes), também. 
Nada é por acaso. Simpatias, ojerizas, identificações e repulsas possuem raízes profundas, simbólicas. Nominadas ou inominadas por almas mimadas ou abandonadas.

A olho nu

Artista é preso em Brasília por ficar nu em performance.
Lamentável distorção da arte que há no corpo. 
Triste restrição à liberdade, que deveria caminhar por toda parte. 
Não há crime na nudez. 
Criminosas são a hipocrisia e a desfaçatez.
Desde quando os criminosos em Brasília andam nus?

Quando

Quando faltam palavras, enlouqueço. 
Quando sobram palavras, enrouqueço. 
Quando faltam sobras, esqueço.
Quando sobram faltas, eu me aqueço.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Anacronismo

O tempo é um sujeito irônico, matreiro, sempre com muitas artimanhas no bolso. Ele vem chegando, aos poucos, tomando conta da situação. Dá as caras e mexe com as nossas, construindo curvas onde havia retas. Transforma certezas adolescentes em dúvidas idosas, desmancha caprichos, nocauteia tolices, apaga retrovisores e acende luzes de alerta.
Talvez haja coisas atemporais. Talvez. Só que os temporais acontecem, notadamente para quem não possui guarda-chuva. Eu não usei guarda-chuva por muito tempo. Nem por isso fiquei molhado em demasia. Marquises foram tão úteis para mim quanto para moradores de rua crônicos.
Mas o que chama minhas palavras agora é o anacronismo. Confesso que me sinto tomado por ele. Quem sabe irreversivelmente. Acreditem ou não, ainda olho para a Lua, desejo bom dia a quem nunca vi antes, agradeço por aquilo que alguns consideram obrigação e, o mais grave, sou romântico, sem ser piegas (será?). Torço pelos índios, contra a cavalaria, pelos fracos e oprimidos (e isso não se restringe às telas de cinema). Não risquei do dicionário palavras como ética, imparcialidade, compaixão, companheirismo, amor.
Acham que para por aí? Não frequento os templos do deus mercado, desprezo roupas de marca, não babo diante de vitrines, não troco de carro antes de trocar os pneus, não sou ateu nem neoliberal. Não torço pelo Flamengo e minha nega não se chama Teresa.
Ufa! O tom confessional era inevitável. Sinto-me razoavelmente aturdido com a constatação de que me tornei, sem perceber, um dinossauro. Nado contra a correnteza, enfrentando as marés, sem lenço e sem documentos. Mas pasmem: sem perder minha identidade. Sou o que sou, o que soa em mim, deixando que o suor leve para fora e longe o que não rima nem rema comigo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Panela de expressão

Preparo meus versos crus e destemperados na panela de expressão.

Até onde?

Gente, até onde vai o amor?
Até onde a gente vaia o amor.